Alimentação e faixa etária explicam taxas do câncer de mama no Estado

O Ministério da Saúde lançou ontem a campanha nacional em alusão ao Outubro Rosa e, junto com a mobilização, apresentou novos dados a respeito do câncer de mama no Brasil. A atualização do cenário da doença apresentado pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca) traz dados ruis para os gaúchos.
Conforme as estimativas para o surgimento de novos casos da neoplasia até o final de 2019, Porto Alegre é a capital com maior taxa de incidência da doença no Brasil, com um índice de 114,25 casos por 100 mil mulheres. Em segundo lugar está a cidade do Rio de Janeiro, com taxa de 113,57 ocorrências.

Já o Rio Grande do Sul aparece em segundo entre os estados com maior incidência do câncer mamário, tendo uma taxa de 88,23 casos por 100 mil mulheres. Em primeiro lugar está o Rio de Janeiro, com 92,9 ocorrências por 100 mil mulheres.
A mobilização promovida no mês de outubro salienta a importância dos três pilares estratégicos de controle da doença: prevenção primária, diagnóstico precoce e exame de mamografia. O Ministério da Saúde recomenda que a mamografia de rotina em mulheres sem sintomas ou sinais de doença em suas mamas (rastreamento) seja feita na faixa etária entre 50 e 69 anos, uma vez a cada dois anos.
O Inca estima um total de 59.700 novos casos de câncer de mama neste ano no Brasil. Apesar dos números, o Ministério da Saúde celebra a baixa mortalidade pela doença – taxa de 13 óbitos por 100 mil, ao lado de países desenvolvidos como Estados Unidos, Canadá e Austrália, e melhor do que França e Reino Unido. Por outro lado, destaca com preocupação a taxa bruta de incidência nacional, que é de 56,33 por 100 mil mulheres, colocando o País na segunda faixa mais alta de incidência da doença no mundo.
Em relação à mortalidade, o Rio Grande do Sul também apresenta indicadores ruins, com o segundo maior índice entre estados – 22 óbitos por 100 mil mulheres -, número abaixo apenas do carioca (24,7), mas muito superior ao nacional.
Por ser uma doença de causas multifatoriais, é difícil apontar com precisão as razões de o Estado ter números tão altos de neoplasia de mama. Entretanto, o diretor-médico do Hospital Santa Rita da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, Carlos Eugênio Escovar, aponta algumas possibilidades para explicar o fenômeno. “Não temos uma convicção ainda, está se tentando entender isso, mas o que nos parece ser é que, primeiro, fazemos bastante diagnóstico precoce, nossas pacientes são mais investigadas, e, com isso, conseguimos ter mais diagnóstico.”
A segunda pode ser explicada pelo Estado possuir um nível de desenvolvimento da população maior, tendo mais incidência de alguns tipos de tumores que não se têm em outros locais. “No Norte e Nordeste se têm muito menos neoplasia de mama, por exemplo. Algumas das associações da neoplasia de mama são hábitos alimentares, sedentarismo, ter poucos filhos, e isso vem ao encontro do que está acontecendo no Rio Grande do Sul”, afirma Escovar.
A chefe do Serviço Médico de Mastologia e coordenadora do Núcleo da Mama do Hospital Moinhos de Vento, Maira Caleffi, também aponta a maior expectativa de vida e os altos índices de obesidade dos gaúchos como fatores decisivos na grande ocorrência de casos de câncer de mama no Estado. “Esses dois são os pontos mais importantes na fórmula multifatorial das causas das neoplasias de mama, na qual entram outros aspectos, como a genética, por exemplo”, destaca a médica que é presidente do Instituo da Mama do Rio Grande do Sul (Imama).

Baixo financiamento prejudica tratamentos no SUS

Ainda que todos os principais e mais modernos medicamentos e tecnologias estejam disponíveis no Brasil, as pacientes que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS) recebem uma atenção muito diferente daquelas que buscam diagnóstico e tratamento na rede privada. O motivo é um só: baixo financiamento público.

“Em alguns casos se consegue fazer mais com menos, mas não é sempre. Além disso, fazer sempre mais com sempre menos é impossível”, aponta o médico Carlos Eugênio Escovar. A posição é corroborada por Maira Caleffi. “Estamos longe de conseguirmos reduzir a alta mortalidade nos hospitais públicos. A diferença de atendimento para a rede privada é muito grande”, afirma a médica, que questiona os dados apresentados pelo Inca, que indicam queda na mortalidade no País. “O Inca não publicou recentemente um estudo que explique ou mostre esses dados sobre queda na mortalidade. No observatório do câncer e nos dados que temos até agora, vemos até um leve aumento na mortalidade por câncer de mama”, alerta.

Conforme o Ministério da Saúde, o investimento público para o tratamento dos diversos tipos de câncer saltou de R$ 2,2 bilhões em 2010 para R$ 4,6 bilhões em 2017, ano que em que foram realizadas pelo SUS 324.045 cirurgias oncológicas, 3,1 milhões de procedimentos quimioterápicos e 11,2 milhões de sessões de radioterapia.

Uma avaliação realizada no ano passado pela Controladoria-Geral da União (CGU), no entanto, aponta uma série de problemas na atenção pública ao combate ao câncer. Entre os “buracos” encontrados, estão a má distribuição de recursos federais com regiões com rede mais estruturada – como Sul e Sudeste – recebendo maiores valores destinados à estruturação de estabelecimentos do que regiões mais carentes, como Norte e Centro-Oeste. Além disso, foi verificada uma tendência de concentração dos investimentos na área de oncologia em estabelecimentos de saúde privados que atendem pelo SUS. Outro problema encontrado pela CGU foram atrasos nas ações voltadas a aumentar a capacidade de oferta de tratamentos oncológicos no SUS.

“Em 2013, o Ministério da Saúde iniciou o Plano de Expansão da Radioterapia, que previa a instalação de equipamentos utilizados no tratamento contra o câncer em 80 hospitais até 2015. Atualmente (primeiro semestre de 2018), somente oito soluções foram entregues”, observa o órgão de controle, que fez uma série de recomendações ao gestor público para que as falhas sejam corrigidas.

JC

voltar
© Copyright 2019